Revista EDICIC, San José (Costa Rica), v.25, e-6034, p.1-19, 2025. ISSN: 2236-5753
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política, etarismo, condição humana (com ou sem deficiência), localização geográfica, entre outras
possibilidades de aprofundamento (Crenshaw, 2002).
Na visão de Patricia Hill Collins e Sirma Bilge (2021), a interseccionalidade aprofunda ainda
mais nossa reflexão sobre a realidade social ao observarmos que os efeitos da tecnologia não recaem
de maneira igual sobre todos os corpos. As combinações entre gênero, raça-etnia, classe, sexualidade,
idade e localização geográfica, por conseguinte, criam diferentes formas de vulnerabilidade e exclusão.
Por exemplo, em um possível erro nos sistemas de reconhecimento facial, as consequências não
afetariam apenas "as mulheres" como uma categoria coletiva, mas impactariam de forma mais aguda
mulheres negras, indígenas e trans, cujas representações visuais são estatisticamente menos
presentes e frequentemente estigmatizadas nos datasets que treinam as IAs (Albiero et al., 2022;
Monteiro, 2023).
Ampliando nossa discussão sob uma perspectiva decolonial, entendemos a decolonialidade
como uma forma de operacionalização da interseccionalidade. Nesse sentido, dialogamos com autoras
como María Lugones (2020), Gení Núñez (2022; 2023) e Rita Segato (2021), cujas obras contribuem
para desnaturalizar os fundamentos ocidentais das categorias de gênero ao questionarem os
processos históricos de colonialidade que entrelaçam raça, corpo e feminilidade com a subordinação.
Aqui, a inteligência artificial é interpretada como uma extensão contemporânea dos mecanismos
classificatórios coloniais, refletindo e reproduzindo os interesses, comportamentos e interações de
seus programadores e usuários. Ao quantificar rostos e gerar padrões de beleza e sucesso, a IA não
apenas classifica, mas hierarquiza subjetividades com base em critérios que têm raízes profundas em
práticas de racialização e controle social, características seminais da colonialidade.
A discussão sobre estereótipos de gênero, tanto da masculinidade quanto da feminilidade,
revela a construção social de padrões de beleza e comportamentos que perpetuam desigualdades. Os
estereótipos associados ao padrão de beleza feminino frequentemente vinculam a imagem da mulher
ao mito da magreza, à juventude e à delicadeza, enquanto os estereótipos de masculinidade tendem
a reforçar uma estética que simboliza força e virilidade (Wolf, 2020). Esses padrões são
frequentemente reiterados nas mídias sociais, onde a criação de comunidades digitais se torna um
meio para promover e normatizar tais ideais. Naomi Wolf (2020) denuncia essas e outras pressões
estéticas experenciadas pelas mulheres no livro “O mito da beleza”, no a autora denuncia como as
imagens de beleza são usadas contra as mulheres, uma vez que delas exige-se muito performance para
corresponder aos estereótipos exigidos pela realidade social no mundo do trabalho, no contexto
acadêmico, nas relações sociais, entre outros espaços.
No que diz respeito à masculinidade, observa-se a emergência de subculturas que incorporam
a chamada cultura "red pill", na qual homens afirmam terem descoberto uma "verdade" sobre suas
relações com as mulheres, categorizando-se em grupos como alpha, beta, sigma e ômega. Além disso,
outro grupo nessa categorização corresponde aos homens que flertam e que moldam a cultura incel
(celibatários involuntários) que nasceu em ambientes de interação social no meio digital. Nessa
subcultura os homens se disfarçam de oprimidos pelo fato de não serem bem quistos pelas mulheres
contribuindo para a construção de narrativas que reforçam a dominação masculina, uma vez que essa
suposta “culpa” pelo fato de eles não terem sucesso na vida amorosa é sumariamente depositada nas
mulheres, já que eles se veem como aqueles que merecem ser desejados por elas.
Conforme discutido por Romeiro e colaboradores (2024), os homens têm desenvolvido, no
ambiente digital, estratégias para perpetuar dinâmicas de poder, as quais incluem também