Revista EDICIC, San José (Costa Rica), v.25, e-6033, p.1-21, 2025. ISSN: 2236-5753
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Repensar a avaliação arquivística: desafios teóricos e propostas neomodernas
pós-digitais
Luis Corujo, Universidade de Lisboa (ULISBOA), Portugal, https://orcid.org/0000-0003-
4411-2453
Maria Cristina Vieira de Freitas, Universidade de Coimbra (UC), Portugal,
https://orcid.org/0000-0002-8849-8792
José Luis Bonal-Zazo, Universidad de Extremadura (UNEX), España, https://orcid.org/0000-
0002-6518-0976
Carlos Guardado da Silva, Universidade de Lisboa (ULISBOA), Portugal,
https://orcid.org/0000-0002-6518-0976
Jorge Revez, Universidade de Lisboa (ULISBOA), Portugal, https://orcid.org/0000-0002-
3058-943X
DOI: https://doi.org/10.62758/re.310
RESUMO
Introdução. O presente artigo analisa as dinâmicas transformadoras da avaliação arquivística num
contexto cada vez mais moldado pelas tecnologias digitais. Método. Conduz-se um estudo de natureza
qualitativa, com recolha e análise de fontes informacionais com vista à constituição de um corpus
estruturado de informação. Para a interpretação dos dados, recorre-se ao método da Teoria
Fundamentada. Análise. Este estudo investiga as tensões entre abordagens modernistas e pós-
modernistas, destacando o papel em evolução dos arquivistas enquanto curadores da memória e da
cultura. Resultados. A investigação evidencia a necessidade de práticas de avaliação que integrem a
[inter]subjectividade, a desconstrução e a inclusividade. Conclusão. Perante os desafios colocados pela
era neo-moderna e pós-digital, propõe-se um enquadramento compreensivo de princípios e propostas
que visam uma avaliação arquivística sustentável e transparente.
Palavras-Chave: Avaliação Arquivística; Neomodernidade; Pós-Digital; Princípios de Avaliação;
Propostas.
Repensando la valoración archivística: desafíos teóricos y propuestas neomodernas
posdigitales
RESUMEN
Introducción. Este artículo analiza la dinámica transformadora de la valoración de archivos en un
contexto cada vez más influenciado por las tecnologías digitales. Método. Se realiza un estudio
cualitativo mediante la recopilación y el análisis de fuentes de información para constituir un corpus
estructurado. Para la interpretación de los datos, se utiliza el método de la Teoría Fundamentada.
Análisis. Este estudio investiga las tensiones entre los enfoques modernistas y posmodernistas,
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destacando el papel evolutivo de los archivistas como guardianes de la memoria y la cultura.
Resultados. La investigación destaca la necesidad de prácticas de valoración que integren la
intersubjetividad, la deconstrucción y la inclusión. Conclusión. Ante los desafíos que plantea la era
neomoderna y posdigital, se propone un marco integral de principios y propuestas para una valoración
de archivos sostenible y transparente.
Palabras-Clave: Valoración Archivística; Neomodernidad; Postdigital; Principios de Valoración;
Propuestas.
Rethinking archival appraisal: theoretical challenges and post-digital neo-modern
proposals
ABSTRACT
Introduction. This article analyzes the transformative dynamics of archival appraisal in a context
increasingly shaped by digital technologies. Method. A qualitative study is conducted, with the
collection and analysis of information sources to constitute a structured corpus of information. For
data interpretation, the Grounded Theory method is used. Analysis. This study investigates the
tensions between modernist and postmodernist approaches, highlighting the evolving role of
archivists as curators of memory and culture. Results. The research highlights the need for appraisal
practices that integrate intersubjectivity, deconstruction, and inclusivity. Conclusion. Faced with the
challenges posed by the neo-modern and post-digital era, a comprehensive framework of principles
and proposals aimed at sustainable and transparent archival appraisal is proposed.
Keywords: Archival Appraisal; Neomodernity; Post-Digital; Appraisal Principles; Proposals.
1 INTRODUÇÃO
O presente artigo analisa as dinâmicas transformadoras da avaliação arquivística num
contexto cada vez mais moldado pelas tecnologias digitais. A ascensão das tecnologias digitais
influenciou de forma substancial a produção, a gestão e a disseminação da informação. Esta
transformação introduziu novos desafios à avaliação arquivística, exigindo uma reavaliação crítica dos
modelos tradicionais (Cook, 2001). Os arquivistas contemporâneos operam num campo de tensões
entre a preservação de narrativas históricas sancionadas pelo Estado e o fomento de memórias sociais
coletivas (Harris, 1997; Ketelaar, 2001). Esta dupla responsabilidade implica uma compreensão
refinada dos processos de atribuição e reatribuição de valor nos arquivos, os quais estão
profundamente enraizados nos contextos sociopolíticos e culturais da memória.
Estas transformações ecoam no seio da Teoria Arquivística, enquanto domínio que se propõe
estudar fenómenos, oferecendo interpretações que orientem a praxis dos arquivistas e das instituições
(Thomassen, 2001). As Tecnologias da Informação, ao facilitarem a disseminação e a partilha de
estudos de caso oriundos de distintas realidades políticas e comunitárias, evidenciam a diversidade de
abordagens profissionais e propostas arquivísticas, frequentemente moldadas por tradições
administrativas e linguísticas específicas (Douglas, 2010; Thomassen, 2015).
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O presente artigo propõe uma análise crítica da avaliação arquivística, partindo das
perspetivas modernista e pós-modernista, com particular atenção às inovações teóricas e
metodológicas das últimas décadas. Abordam-se ainda os desafios impostos pela era neomoderna e
pós-digital, propondo-se, para o futuro da prática arquivística, um roteiro orientado por Propostas e
Princípios.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Parte-se das propostas para a Era da Neomodernidade baseadas nas observações de Giddens
(1997), Habermas (2017) e segundo as perspetivas de Rouanet (1986, 1998) e Marques (1993), que
alertam para a necessidade de a Modernidade realizar uma reflexão sobre si mesma, sobre as suas
origens e as suas derivações (como as propostas da Pós-modernidade), com a perceção de que o
Conhecimento se constrói através do desenvolvimento de uma linguagem, uma dialética discursiva,
intersubjetiva.
Adicionalmente, apresenta-se o pensamento dedicado ao Pós Digitalismo, como resultado da
omnipresença das tecnologias digitais, integradas na vida quotidiana, transformando profundamente
a forma como os seres humanos experienciam o mundo (Jandrić et al., 2023; Grasso, 2023).
2.1 Contexto Teórico e Mudanças de Paradigma
Ridener (2009) observa que os arquivistas enfrentam desafios multifacetados decorrentes dos
avanços tecnológicos, em particular da integração generalizada de registos eletrónicos nos contextos
organizacionais. Estes desenvolvimentos têm implicações profundas tanto para a teoria como para a
prática arquivística, impulsionados pela adoção de tecnologias de ponta nos fluxos de trabalho
institucionais e pela rápida evolução do panorama informacional. Um aspeto particularmente
preocupante prende-se com as limitações intrínsecas associadas à preservação indefinida deste tipo
de registos (Duranti, 2001).
Para além da crescente dependência da tecnologia digital na produção, na gestão e na
disseminação da informação, o campo arquivístico é atravessado por tensões entre abordagens
modernistas e perspetivas arquivísticas contemporâneas. Estas tensões refletem os processos
dinâmicos de criação e reconfiguração dos paradigmas arquivísticos, sublinhando a necessidade de
ultrapassar a polarização nos debates teóricos. A adoção de abordagens holísticas revela-se, assim,
essencial para promover uma compreensão mais integrada e abrangente do trabalho arquivístico.
Neste enquadramento, os documentos, enquanto veículos essenciais de informação,
enfrentam desafios sem precedentes em ambientes eletrónicos. Ao mesmo tempo que funcionam
como instrumentos de registo da memória, revelam também tensões acentuadas, como a dialética
entre memória e esquecimento. Os arquivos, enquanto repositórios dinâmicos da memória social,
operam sobre decisões de avaliação que determinam o que será preservado e o que será descartado.
A dicotomia entre a memória sancionada pelo Estado e a memória coletiva da sociedade reflete
debates culturais e políticos mais amplos sobre as histórias que são representadas e as que são
marginalizadas (Cook, 2011; Couture, 2005). Outras tensões emergem entre a preservação de
informação original e única e as limitações inerentes à conservação permanente. Estas tensões o
exacerbadas pelo facto de os documentos resultarem de processos complexos de construção da
informação.
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A base da avaliação arquivística reside na atribuição de valor aos documentos, processo que
se inicia com a sua criação. Tradicionalmente alicerçada em ideais positivistas de objetividade e
imparcialidade, esta prática tem vindo a ser crescentemente questionada. As críticas pós-modernas
evidenciam a falácia destes pressupostos, destacando a inevitável subjetividade e as dimensões
sociopolíticas envolvidas. Em alternativa, sublinham-se hoje a transparência e a reflexividade como
princípios estruturantes, assegurando que as decisões de avaliação sejam justificáveis e inclusivas
(Eastwood & MacNeil, 2010). Enquanto prática transversal à atividade arquivística, a avaliação implica
a concretização de tarefas de determinação do valor, relevância, importância e impacto dos registos.
Deve ser compreendida como um exercício democrático, transparente, reflexivo e solidamente
fundamentado, que navega entre múltiplas tensões: objetividade versus subjetividade, abordagem
modernista/positivista versus pós-modernista, e avaliação opaca versus avaliação transparente (Cook,
2011; Couture, 2005).
2.2 Princípio do Ciclo de Vida dos Documentos versus Princípio do Continuum Documental
Uma outra tensão teórica relevante emerge da comparação entre o Princípio do Ciclo de Vida
dos Documentos e o Princípio do Continuum Documental, conforme analisado por An (2003).
Fundamentado na teoria arquivística de matriz schellenbergiana, o Princípio do Ciclo de Vida
dos Documentos sustenta a definição dos processos de gestão documental consagrada na norma ISO
15489 (ISO, 2016), onde as ações relativas à disposição documental correspondem à fase terminal do
ciclo. Esta abordagem parte do reconhecimento do valor administrativo e do valor evidencial dos
documentos, estruturando o percurso documental em fases claramente definidas, geridas de forma
distinta por diferentes grupos profissionais, até que os documentos sejam eliminados ou preservados,
por vezes para fins diversos daqueles que motivaram a sua criação. Considera-se, neste modelo, a
existência de diferentes valores (atuais ou históricos) na seleção documental. A avaliação arquivística
ocorre na fase final do ciclo, após a produção da informação, atribuindo aos arquivistas um papel
passivo e reativo, inserido numa lógica custodial. Esta abordagem perpetua a distinção entre gestores
documentais centrados na gestão de documentos ativos e semiativos e arquivistas
responsáveis pela documentação de valor histórico. O modelo baseia-se predominantemente em
suportes físicos e nas operações de custódia e transferência de documentos em papel.
Em contraste, o Continuum Documental foi desenvolvido por Upward (1996; 1997) em
resposta à necessidade de gerir e controlar a informação eletrónica, desde o momento anterior à sua
criação até à sua preservação e reutilização fora do contexto original. Este modelo conceptualiza a
gestão documental como um processo contínuo e multidimensional que atravessa quatro dimensões
criação, captura, organização e pluralização , prescindindo de uma ordenação temporal ou de
fases documentais estanques. Os documentos são aqui considerados numa perspetiva
multidimensional, com uma gestão integrada tanto do processo organizacional como do processo
documental, permitindo a realização simultânea de múltiplas finalidades, independentemente do
momento do seu ciclo de existência. O continuum reconhece um valor contínuo, que integra tanto os
valores atuais como os históricos (informaçãomemória). A avaliação inicia-se no momento da criação
da informação e prolonga-se ao longo de toda a sua existência. Pressupõe, assim, uma avaliação prévia
à produção da informação, com a aplicação de instrumentos de avaliação desenvolvidos
antecipadamente à produção e registo dos documentos. Neste modelo, os arquivistas desempenham
um papel proativo e pós-custodial, sendo responsáveis pela produção de políticas de gestão
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documental, planeamento e implementação de sistemas de gestão de documentos, bem como
atividades de consultoria e formação.
Neste enquadramento, o papel do arquivista adquire uma natureza múltipla, marcada por
responsabilidades interligadas. O arquivista não é apenas um curador que assegura a compreensão e
defende a integridade, autenticidade e fiabilidade dos documentos; é igualmente um agente ativo na
construção da memória coletiva. Compete-lhe identificar os processos sociais que merecem ser
lembrados, bem como os documentos que contribuem para essa construção memorial. Tal implica
decisões sobre que memórias, indivíduos e eventos serão representados no arquivo, assim como a
determinação do que será preservado ou eliminado, destacando-se a sua responsabilidade na
configuração das identidades coletivas (Cook, 2005). Estas decisões definem, em última instância, a
própria natureza do arquivo, revelando a tensão fundamental entre a perceção tradicional do
arquivista como mediador passivo e a conceção contemporânea do arquivista enquanto construtor da
memória social.
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
É realizado um estudo de natureza qualitativa, com base na recolha e na análise de fontes
informacionais, seguindo uma abordagem de Análise Documental, de modo a permitir a construção
de um corpus estruturado de informação (Corujo, 2023). Tal processo inicia-se pela identificação das
fontes (bases de dados científicas), seguida da avaliação da qualidade das revistas. Após a pesquisa ter
resultado em cerca de 2000 artigos, utiliza-se uma escala de Likert para selecionar os mais relevantes
para a investigação. Este corpus é analisado e interpretado através do Método da Teoria
Fundamentada (Charmaz, 2014; Corbin & Strauss, 2015), resultando na elaboração de uma grelha
teórica crítica e orientada para as tendências da literatura examinada, culminando na formulação de
um conjunto de propostas e princípios aplicáveis à avaliação documental.
4 ABORDAGENS À AVALIAÇÃO ARQUIVÍSTICA
Este estudo apresenta as tensões entre abordagens modernistas e pós-modernistas,
destacando o papel em evolução dos arquivistas enquanto curadores da memória e da cultura.
Autores, como Ridener (2009), apresentam a História da Teoria Arquivística como um cenário
composto por diferentes quadros conceptuais ou períodos. O período de Consolidação Teórica,
representado pelo Manual Holandês de 1898 (Müller et al., 2003), está associado à responsabilidade
de preservar a informação arquivística, centrada em conceitos como imparcialidade, evidência e
perpetuação da memória, com o propósito de apoiar uma investigação histórica de cariz positivista
factual e orientada para uma verdade singular e neutra.
O período de Confirmação e Reforço, representado por Jenkinson (1922), defende a
objetividade do arquivista e a imparcialidade da informação arquivística, considerando que a decisão
de avaliação deveria pertencer ao produtor ou ao administrador do arquivo, de modo a continuar a
satisfazer as suas necessidades funcionais.
O período Moderno, representado por Schellenberg (1956), advoga a participação dos
arquivistas no processo decisório, equilibrando as necessidades de evidência, uso, memória e
investigação. Esta abordagem introduz uma diferenciação de papéis entre os documentos, os
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profissionais e as entidades de custódia, com base na dicotomia entre valores primários e valores
secundários.
O último período, designado Questionamento, remete para as teorias pós-modernas, com
vários representantes, entre os quais Terry Cook (1995), que defende a ampliação do número de
grupos sociais envolvidos no processo de avaliação, tanto em organizações como em comunidades.
Tal perspetiva propõe o alargamento dos repositórios arquivísticos para incluir organizações não
governamentais e comunidades informais, deslocando as instituições arquivísticas de meros centros
de evidência para também se assumirem como espaços de memória e construção narrativa.
No final do século XX, verifica-se uma tendência para o planeamento estratégico apriorístico
baseado na definição de critérios temáticos, funcionais e/ou organizacionais persistentes, no seio
de uma sociedade, grupo ou organização (Cook, 2011). A esta luz, torna-se evidente que os
argumentos e as normas desenhadas para organizações estáveis e de longa duração, como municípios
ou governos, não se adequam ao desenvolvimento de programas arquivísticos destinados ao setor
privado, indivíduos, comunidades informais de interesse, ou mesmo a projetos multi-institucionais e
multi-jurisdicionais.
As teorias de avaliação arquivística deste período passaram frequentemente a privilegiar a
análise da importância da função, unidade organizacional ou indivíduo responsável pela produção
documental, ou a definição de temas, movimentos ou personalidades a documentar. Neste quadro,
destacam-se modelos como a documentation strategy, (Samuels, 1986) e a documentation plan
(Booms, 1991).
Contudo, se a avaliação arquivística se deve centrar nos próprios documentos informacionais,
com o intuito de determinar se estes possuem valor intrínseco, significado estrutural em relação a
outros materiais, ou relevância devido à sua associação a um determinado grupo ou evento, vários
teóricos da avaliação defendem um processo mais abstrato. Tal abordagem justifica-se pelo
investimento de recursos implicados na avaliação e pelas dificuldades em antecipar as futuras
necessidades e interesses da sociedade relativamente a essa informação. Uma dessas propostas é a
macroavaliação, que enfatiza a importância do contexto, organizando a informação em amplas
categorias temáticas e relacionando-a com mandatos específicos ou responsabilidades sociais bem
definidas (Cook, 2005, 2011; Williams, 2006).
Investigadores como Makhlouf Shabou (2011) procederam à sistematização destas e de outras
estratégias e/ou abordagens, incluindo a Documentation Plan, a Documentation Strategy, a
Macroavaliação, a Abordagem Centrada no Utilizador, e a Abordagem Integrada.
Desenvolvido por Hans Booms e Angelika Menne-Haritz na Alemanha, o Plano de
Documentação assenta em diversos conceitos e ideias fundamentais. Foca-se no conteúdo temático
dos documentos e enfatiza a utilização de valores sociais contemporâneos num contexto pluralista. O
principal objetivo desta abordagem consiste em identificar e preservar documentos que reflitam os
valores da sociedade no momento da sua criação. Neste enquadramento, o arquivista assume um
papel central, orientado pelos resultados da análise da opinião pública, a qual envolve múltiplos
intervenientes. O processo implica uma análise histórica crítica de temáticas sociais relevantes e o
estudo da opinião pública num determinado período cronológico. O resultado é a elaboração de um
plano ou crónica que serve de guia abrangente para a avaliação e seleção dos materiais arquivísticos
(Booms, 1987, 1991, 2001; Menne-Haritz, 1994).
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Desenvolvida por Helen Samuels, Larry Jackman e Patricia Aronsson nos Estados Unidos, esta
abordagem baseia-se em conceitos como a análise funcional, a participação ativa dos arquivistas e um
processo interdisciplinar. O seu objetivo é identificar e preservar material documental relevante e
representativo que reflita as funções no seio das quais foi produzido. Este material é proveniente de
um conjunto de instituições consideradas essenciais para a sociedade contemporânea, tendo em conta
temas sociais-chave. O processo implica um esforço colaborativo entre o arquivista e o produtor
documental, com os arquivistas a desempenharem um papel ativo na criação, análise e seleção dos
documentos arquivísticos. A estratégia utiliza a análise funcional em dois níveis: interinstitucional,
abrangente, para identificar os temas essenciais da sociedade; e intrainstitucional, contextual,
centrada no produtor documental. Esta é complementada por um planeamento sistemático para
determinar a documentação apropriada a cada área em análise (Marshall, 1998; Samuels, 1986, 1991).
Desenvolvida por Terry Cook no Canadá e posteriormente adotada na Austrália e na Nova
Zelândia, esta abordagem conjuga um quadro teórico de determinação do valor documental com uma
metodologia prática para a sua implementação. Centra-se na identificação de documentos relevantes
para a preservação da memória coletiva das instituições governamentais e como prova das suas
atividades passadas. Apesar de o arquivista desempenhar um papel central, a abordagem foca-se
essencialmente no produtor da documentação. Utiliza a análise funcional, que consiste no estudo da
estrutura organizacional e na identificação das funções de maior interesse, com vista a orientar o
processo de avaliação (Cook, 1995, 2004, 2005).
Desenvolvida por Terry Eastwood (com influências de Luciana Duranti) no Canadá, esta
abordagem valoriza o enfoque no próprio documento e na sua utilização, incorporando critérios
jenkinsonianos como a imparcialidade e a autenticidade. -se primazia a documentos com qualidades
intrínsecas relevantes para a memória social, funcionando como prova tangível de um ato, ação ou
acontecimento. Embora o arquivista assuma um papel central, esta abordagem é sobretudo centrada
no utilizador. Implica uma análise objetiva das características intrínsecas dos documentos, bem como
das suas utilizações passadas e presentes, de forma a prever tendências futuras no uso da
documentação (Duranti, 1994; Eastwood, 1993, 1994).
Desenvolvida por Carol Couture no Canadá, esta abordagem enfatiza o equilíbrio entre os
contextos de produção e de uso, bem como os próprios documentos (conteúdo e suporte físico),
incorporando critérios de avaliação centrados na captação do valor primário ou administrativo. A
proposta assenta nas teorias de Schellenberg. Visa identificar o número mínimo de documentos que
contenham o máximo de informação pertinente para a memória de uma instituição (ou indivíduo) e,
por conseguinte, para o património cultural da sociedade. A abordagem é executada pelo arquivista,
procurando equilibrar as necessidades do produtor e do utilizador. O processo inicia-se com uma
análise de necessidades, com vista à implementação de um programa anterior à produção
documental. Segue um processo bifásico: uma macroavaliação, centrada no contexto de produção, e
uma microavaliação, focada no contexto de utilização (Couture, 1998, 1999, 2003; Rousseau &
Couture, 1994).
5 OUTRAS ABORDAGENS E TÉCNICAS DE AVALIAÇÃO ARQUIVÍSTICA
Diversas metodologias têm emergido ao longo deste século como extensões práticas das
teorias pós-modernas, cada uma delas abordando distintas dimensões do processo de avaliação
arquivística (Corujo, 2023).
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Abordagem das Redes Sociais: eEsta abordagem centra-se na análise e avaliação da
informação com base nos papéis sociais desempenhados pelo emissor e pelo recetor da informação,
bem como na natureza da relação com os detentores dessa mesma informação (Cocciolo, 2016).
Modelo Participativo: este modelo refere-se à inclusão de participantes nos projetos que não
pertencem às organizações promotoras dos mesmos ou que, pertencendo, intervêm unicamente
enquanto utilizadores da informação. Estes participantes podem incluir membros da comunidade com
vínculo à informação em questão, sujeitos da própria informação ou utilizadores informacionais (sejam
estes externos ou internos à organização). A abordagem metodológica pode ainda integrar
instrumentos de consulta especializada como o método Delphi (Beneito Arias, 2008).
Projetos que Incorporam Documentation Strategy, Análise Funcional, Análise Técnica e
Microavaliação: esta dimensão contempla estratégias e/ou abordagens aplicadas em projetos que
envolvem todos os indivíduos e instituições identificáveis que participaram nas ações conducentes à
produção da informação arquivística, a qual é avaliada enquanto parte integrante do objeto do projeto
(Estratégia de Documentação). Estas abordagens integram uma análise funcional do fenómeno em
estudo, uma análise técnica dos suportes e formatos da informação, e uma abordagem de base
bottom-up que recorre à microavaliação de amostras de informação arquivística com o propósito
de aferir a precisão na identificação dos objetos informacionais e de sustentar uma classificação mais
abrangente (Sloyan, 2016).
História Digital: compreende uma estratégia e abordagem interdisciplinar entre a História e a
Ciência da Informação/Arquivística, fazendo uso de elementos técnicos e baseando-se na criação de
um vocabulário partilhado para a produção, utilização e avaliação de representações históricas digitais
(Sternfeld, 2011).
Políticas de Aquisição Documental Baseadas em Critérios de Seleção: diz respeito a projetos
que selecionam informação arquivística com o intuito de ser adquirida e incorporada nos repositórios
institucionais, de acordo com critérios previamente definidos e em consonância com os objetivos
específicos de cada projeto (Novara, 2013).
Técnica de Amostragem: integra estratégias e/ou abordagens que estabelecem critérios de
seleção de uma amostra documental no seio do universo informacional visado pelo projeto. Tais
critérios visam determinar o valor da informação a preservar ou eliminar (Rydén, 2014).
Género Documental: reporta-se a estratégias e/ou abordagens que promovem o
desenvolvimento e a aplicação de taxonomias de tipologias documentais, como instrumento de apoio
à definição de critérios de avaliação arquivística (Oliver et al., 2008).
Método do Minnesota: estratégia de seleção de informação arquivística que conjuga aspetos
de análise de coleções, Estratégia de Documentação, macroavaliação e análise funcional. Esta
abordagem pragmática foi desenvolvida por Mark A. Greene e Todd J. Daniels-Howell na Minnesota
Historical Society, durante a década de 1990, com o intuito de equilibrar a documentação das
atividades empresariais (sob uma perspetiva económica) com outras esferas documentais. Visa apoiar
decisões mais racionais e fundamentadas relativamente à seleção documental, face ao elevado
volume de informação arquivística do Estado. O modelo contempla a avaliação de atividades
económicas no Minnesota, ponderando o contributo de cada setor para a economia estadual, para
além dos dados de dimensão, produto interno bruto e número de trabalhadores (Craig, 2004).
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More Product, Less Process (MPLP): proposta desenvolvida por Mark A. Greene e Dennis
Meissner (2005), ao longo de diversos artigos (Greene, 2010; Meissner & Greene, 2016), que contesta
a morosidade dos modelos tradicionais de tratamento arquivístico, considerando que o crescimento
exponencial do volume documental compromete a eficácia da profissão. Defendem o processamento
mínimo como forma de mitigar atrasos e proporcionar um acesso célere às coleções arquivísticas. Esta
abordagem tem sido elogiada sobretudo pela sua capacidade de aumentar a acessibilidade dos
utilizadores, sem comprometer opções de tratamento futuro (Mersiovsky, 2014; Wright, 2010).
Federführungsmodell: ou “modelo da entidade líder”, aplica uma perspetiva colaborativa à
avaliação arquivística. Refere-se à documentação produzida pelas mais altas autoridades federais, cuja
avaliação é da responsabilidade do Bundesarchiv, com base em critérios relacionados com o
desempenho de funções. O cerne do modelo reside na diferenciação entre responsabilidade
administrativa principal (Federführung), envolvimento qualificado e envolvimento simples. A mera
atribuição formal de responsabilidade principal não determina, por si só, a validade arquivística nem
implica automaticamente a transferência da respetiva documentação. Compete ao arquivista formular
a questão decisiva sobre a relevância da função desempenhada. A inclusão de múltiplos intervenientes
democratiza o processo de decisão, refletindo o princípio pós-moderno da inclusividade e da
autoridade partilhada (Taylor, 2016).
Avaliação Horizontal e Vertical: desenvolvida pelo Landesarchiv do Estado de Baden-
Württemberg, esta abordagem partilha afinidades com a macroavaliação, sendo uma resposta ao
apelo para que os arquivistas se envolvam mais profundamente na gestão documental das agências
governamentais e das práticas administrativas públicas em geral. O objetivo consiste em assegurar
uma transferência documental condensada, mas representativa da realidade vivida no âmbito das
funções da organização pública. Tal é exequível com um conhecimento preciso dos processos
organizacionais, não sendo suficiente a mera análise documental (Aktenautopsie). A valoração
arquivística é realizada prospetivamente, ou seja, no momento da produção da informação. A sua
execução costuma envolver equipas compostas por três a quatro arquivistas (Taylor, 2016).
Os modelos de avaliação documental anteriormente referidos evidenciam o papel em
constante evolução do arquivista enquanto mediador da memória e da cultura. Através da adoção de
práticas transparentes e reflexivas, os arquivistas podem orientar-se pelas complexidades do processo
avaliativo de forma a honrar tanto as narrativas individuais como as coletivas.
6 ERA NEOMODERNA E PÓS-DIGITAL
A contrastar com a perspetiva da modernidade, em que se considera existir uma verdade única
acerca do objeto, em que os métodos usados para atingir o conhecimento são quantificáveis, isoláveis
e sem qualquer ambiguidade, garantindo a separação entre sujeito e objeto (Marques, 1993), autores
como Foucault (2024) apontam que a verdade está vinculada ao discurso de cada Sociedade e contexto
histórico, pelo que existem diferentes “verdades”, i.e., narrativas enformadas nas construções
[inter]subjetivas dos diferentes paradigmas.
Assumindo a ideia do esgotamento do projeto da modernidade, cujas consequências
atribuídas incluem a ameaça da aniquilação atómica, os fanatismos ideológicos e religiosos, a
degradação dos ecossistemas (Giddens, 1997), autores como Habermas (2017) referem-na como
projeto inacabado”, considerando necessária a sua correção e reconstrução, mostrando um perfil de
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crítica às propostas da pós-modernidade por alguns autores como reflexo de um desejo de rotura da
pós-modernidade. Tanto Rouanet (1998) como Giddens (1997) apontam a existência de um desejo de
rotura. Se Rouanet (1998) tenta mostrar a inexistência de qualquer rotura com a modernidade, apesar
de admitir a existência de uma "consciência de rotura", Giddens (1997) considera que o pós-
modernismo, a existir, parece querer exprimir uma consciência de uma transição, mas não mostra que
ela existe.
A Teoria da Ação Comunicativa (Habermas, 1986) é um projeto crítico Habermasiano que
pretende reconstruir um conceito de razão que não está fundamentado numa racionalidade
instrumental ou objetivista, mas sim num ato comunicativo emancipatório. Provém de uma crítica à
visão limitada de Theodor Adorno e Max (2016) acerca da Razão e do Projeto do Iluminismo. A
reconstrução habermasiana propõe que a ação e a compreensão humanas possam ser analisadas de
forma proveitosa como tendo uma estrutura linguística, e que cada enunciado depende da
antecipação da liberdade face a formas de dominação desnecessárias. Estas estruturas linguísticas da
comunicação podem ser utilizadas para estabelecer uma compreensão normativa da sociedade. Tal
conceção de sociedade é utilizada para possibilitar uma conceptualização do contexto da vida social
ajustada aos paradoxos da modernidade (Habermas, 1984).
Para Habermas (1992), à medida que a modernidade foi avançando ao longo dos anos,
mudanças graduais na vida das pessoas tornaram cada vez mais rara a participação neste processo.
uma participação cada vez menor dos cidadãos naquilo que Habermas considera ser uma das maiores
conquistas produzidas pelo Iluminismo para melhorar a vida dos indivíduos: o que ele chama de
“esfera pública.”
A “esfera pública” surgiu no contexto do Iluminismo e do capitalismo emergente, operando
como espaço de deliberação racional entre cidadãos, i.e., como espaço intermediário entre a
sociedade civil e o Estado, onde cidadãos se reuniam para debater criticamente os assuntos de
interesse comum. Fundamentava-se na racionalidade comunicativa, na acessibilidade universal e na
suspensão das hierarquias sociais nos debates. Trata-se de uma democracia racional e participativa
um processo de cidadania crítica, em que as pessoas se reúnem, partilham as suas experiências de vida
individuais e procuram, por meio do diálogo, alcançar um entendimento mútuo. Isso era apenas uma
parte do que a esfera pública representava. No entanto, à medida que o capitalismo se consolidava e
o Estado se burocratizava, esta esfera pública sofreu uma transformação profunda. O debate crítico-
racional foi gradualmente substituído pela opinião pública manipulada por meios de comunicação em
massa. A separação entre Estado e sociedade civil tornou-se difusa, com a crescente interpenetração
entre interesses privados e poder público. O consumo cultural substituiu a participação ativa,
convertendo o cidadão num espectador passivo. Trata-se, portanto, de uma transformação estrutural
que culmina na despolitização do público e na colonização da esfera pública por lógicas de mercado e
publicidade. De forma mais geral, com o avanço da tecnologia, as pessoas têm recorrido menos
frequentemente à “racionalidade comunicativa” gradualmente substituídas por meios de
comunicação e sistemas mais orientados para o controlo do que para a conexão genuína entre as
pessoas. Estão a ter cada vez menos conversas significativas entre si, nas quais aprendem sobre o
mundo à sua volta através do contacto com outros seres humanos. Isto compromete a possibilidade
de um debate público autêntico, pois a mediação informativa passou a ser orientada por interesses
sistémicos e não pela lógica comunicativa da esfera pública (Habermas, 1992).
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Habermas reitera recentemente (2023) esta tendência da colonização da esfera pública por
interesses económicos e lógicas sistémicas, em que a comunicação é substituída pela publicidade, o
cidadão ativo transforma-se em consumidor passivo, o Estado torna-se mais intervencionista e o
mercado mais invasivo. À medida que o ideal deliberativo foi sendo minado e a opinião pública se foi
tornando manipulável, tal redundou na crise da legitimidade dos parlamentos e dos partidos, no
impacto da globalização e da financeirização na vontade política e num quadro de desinformação
sistémica, caldo para a ascensão de regimes autoritários e da apatia cívica. A esfera pública perceciona-
se, atualmente, marcada pela digitalização, fragmentação, populismo e erosão da confiança pública,
num ambiente mediado por plataformas digitais e redes algorítmicas. As plataformas digitais de redes
sociais substituem, em grande parte, os meios de comunicação tradicionais como mediadores da
opinião pública, mas sem recorrer a filtros epistémicos, com baixa qualidade deliberativa e alta
polarização (Habermas, 2023).
Perante este cenário, de crescente interdependência económica e ecológica global, que
implica uma esfera pública transnacional e uma vontade política que transcenda o Estado-nação, que
sirvam para reorientar as infraestruturas políticas e tecnológicas, com a finalidade de garantir inclusão,
qualidade discursiva e eficácia política (Habermas, 2023), apontamos a perspetiva neomoderna
proposta por Rouanet (1998), e que contesta a modernidade atual em nome da modernidade virtual”,
que se opõe às “fantasias pós-modernas” com um programa exigente e “inflexivelmente moderno
para fazer cumprir as espectativas criadas pelo projeto de modernidade (Rouanet, 1998, p.270). Tal
significa aceitar o desencantamento do mundo como processo que libertou o Homem da autoridade
e tradição, mas também recusar as propostas de regressão pré-modernas oriundas dos novos e velhos
fundamentalismos e seitas. Daí resulta o combate ao obscurantismo e a defesa da Ciência contra quem
a ataca (por vezes, fazendo mesmo uso da dialética emanada do discurso científico). Rouanet (1986,
1998) defende ainda que cabe à Sociedade definir as políticas científicas, sem que, para isso, interfira
na pragmática do discurso científico. No fundo, a neomodernidade como resultado da reflexão que a
modernidade realiza sobre si mesma, as suas origens e derivações. Assim, apoiando-se na ideia de
racionalidade habermasiana (Habermas, 2006; Giddens, 1992), que considera a razão crítica a
ferramenta para contrapor o relativismo, Rouanet (1998) considera a necessidade de constituição de
um novo racionalismo, o que exige um processo de “reconstrução da modernidade”. Nesta perspetiva,
a razão é um processo argumentativo com o fito de atingir o consenso “sem deformações externas,
resultantes da violência, ou internas, resultantes da falsa consciência, através de provas e
contraprovas, de argumentos e contra-argumentos”, negando a facticidade, ao não considerar a
existência de proposições que possam corresponder a uma (única!) verdade objetiva (Rouanet 1998).
Isto é corroborado por Marques (1993), quando, ao abrigo da ideia de que a relação intersubjetiva
constrói o conhecimento, permite considerar que o fator de validação teórica não é a relação entre o
sujeito e as suas experiências com o objeto, mas sim a relação entre sujeitos. Pelo que são o discurso
e a argumentação dos sujeitos às partes interessadas que constroem a validade das teorias. Será,
assim, pela linguagem, mais precisamente, pelo discurso teórico argumentativo, que se validam as
pretensões de verdade (Marques, 1993). Mas tal significa, reitera-se, que as verdades são mediadas e
já não imutáveis, podendo ser repensadas intersubjetivamente e modificadas através da linguagem, a
mesma que é usada para as validar.
Para Rouanet (1998), a perspetiva neomoderna não renuncia ao projeto hegeliano de
restaurar a unidade da razão pulverizada e de permitir que a humanidade possa atingir um
entendimento mútuo sobre os problemas derivados do mundo objetivo das coisas, do mundo social
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das normas e o mundo subjetivos das vivências e das emoções (a Ciência, a Moral, a Arte), mas não
aceita a sua indiferenciação pré-moderna, nem que um deles se arrogue no direito de representar a
totalidade da razão.
A perspetiva neomoderna assume a precariedade das verdades, mas reconhece a sua
existência. Tal implica um processo dinâmico de pensamento continuado por parte do sujeito,
recorrendo à linguagem, presumindo que a construção do Conhecimento não seja apenas mais do que
a reprodução de conteúdos, mas revivido em cada encontro intersubjetivo (Pinto, 2018; Santos, 2023).
O pós-digital é um conceito que procura descrever o estado contemporâneo da nossa relação
com a tecnologia digital, no qual a fronteira entre o mundo físico e o mundo digital se revela cada vez
mais difusa. Tal noção pressupõe que a Sociedade ultrapassou o entusiasmo inicial e a novidade
associada às tecnologias digitais, e está a evoluir para uma fase em que estas se tornaram parte
integrante e indissociável do quotidiano (Jandrić et al., 2023).
O pensamento pós-digital reconhece que o universo digital não constitui uma entidade
autónoma ou isolada, mas sim uma extensão do mundo físico. Por conseguinte, torna-se imperioso
encarar a tecnologia digital de modo mais holístico, contemplando não apenas os seus aspetos
técnicos, mas também as suas implicações sociais, culturais e ambientais (Jandrić et al., 2023).
A era pós-digital caracteriza-se igualmente por um afastamento da crença ingénua segundo a
qual a tecnologia constitui a solução universal para os males que afligem a sociedade. Em vez disso,
assiste-se a uma crescente consciência de que a tecnologia representa apenas um instrumento
entre muitos outros suscetível de ser mobilizado para enfrentar os desafios complexos que se
colocam ao nosso tempo (Jandrić et al., 2023).
Em suma, o conceito de pós-digital convoca-nos a uma reflexão crítica sobre a nossa vinculação
às tecnologias digitais, exortando-nos a explorar modos de as utilizar com vista à construção de um
futuro mais sustentável, equitativo e focado na dignidade humana (Jandrić et al., 2023).
O mundo Pós-Digital (Grasso, 2023), marcado pela transformação digital acelerada, sublinha a
importância do envolvimento e da formação contínua como elementos essenciais para a adaptação às
rápidas mudanças tecnológicas. A criação de uma cultura organizacional assente na aprendizagem
contínua torna-se, assim, imperativa para que as instituições acompanhem o ritmo da evolução
tecnológica diária. No cruzamento entre transformação digital e experiência humana, Grasso (2023)
defende que a tecnologia deve complementar, e não substituir, a criatividade e a engenhosidade
humanas. As tecnologias digitais estão a tornar-se omnipresentes e perfeitamente integradas na vida
quotidiana, transformando profundamente a forma como os seres humanos experienciam o mundo.
Grasso (2023) destaca tecnologias como a inteligência artificial generativa, a nanotecnologia e
o blockchain, cujo potencial transformador é já visível, ainda que a sociedade enfrente desafios na sua
plena assimilação. A compreensão e adaptação a estas inovações serão determinantes para o
desenvolvimento futuro e para a maximização dos seus benefícios sociais.
Paralelamente, Grasso (2023) refere-se à sustentabilidade, e alerta para a necessidade de
considerar as fontes de energia associadas ao desenvolvimento tecnológico. Reconhece que, embora
as tecnologias digitais impliquem um consumo energético significativo, também têm a capacidade de
promover uma maior consciência ambiental e interligação global.
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O autor perspetiva um modelo capitalista contextualizado por stakeholders, no qual as
empresas [e, acrescentamos nós, organizações em geral] adotam práticas sustentáveis com vista ao
bem comum. Nessa visão, Grasso (2023) considera que os cidadãos possam participar ativamente nos
processos de governação onde o lucro empresarial caminhe lado a lado com o benefício social. Apela,
por fim, a uma ação coletiva e a uma imaginação partilhada que posicione a tecnologia como agente
catalisador de uma transformação positiva para a humanidade.
Tal perspetiva, porém, requer como contraponto, o que foi expresso por Habermas (1992,
2023) acerca do processo gradual de transformação e desfiguração da esfera pública deliberativa pelas
lógicas de mercado, do consumo e da burocratização do Estado (1992), em tempos de polarização
digital, manipulação algorítmica do debate público, fragmentação das audiências, desinformação e
fake news (2023). Corrobora o alerta que foi lançado e confirmado por Huws (2003, 2014)
relativamente à Era Digital, e que destaca como as sucessivas vagas de tecnologias da informação e da
comunicação e a transformação digital têm servido para criar novos domínios de acumulação
capitalista, bem como a mercantilização da biologia, da arte e da cultura, dos serviços públicos e da
própria socialidade. Aponta ainda o surgimento de um ciberproletariado, com identidade e poder
coletivo erodidos por empregos cada vez mais flexíveis e indefinidos e exigindo constante
requalificação, no contexto da economia digital, à conta de uma flexibilização laboral eufemismo
para designar as formas de trabalho precarizadas, fragmentadas, deslocalizadas e mediadas por
plataformas digitais. É neste contexto que o capitalismo digital consegue inserir-se em todos os
campos da vida - até nas relações pessoais - uma vez que, ações quotidianas como navegar na internet,
publicar em plataformas de redes sociais digitais ou usar aplicações móveis geram dados que são
monetizados. O trabalho torna-se difuso e contínuo, até o trabalho não remunerado dos utilizadores,
como o tempo de audiência em linha, que constitui uma forma de renda para plataformas (Huws,
2003, 2014).
Esta Era Neomoderna e pós-digital (Jandrić et al., 2023; Grasso, 2023) introduz desafios inéditos
à avaliação arquivística, nomeadamente no que concerne à sustentabilidade da informação digital e à
preservação das identidades culturais diversas, num mundo cada vez mais globalizado. Em resposta,
as Propostas e Princípios oferecem um enquadramento abrangente para enfrentar estas
problemáticas emergentes.
6.1 Desafios na Era Neomoderna e Pós-Digital
A natureza multifacetada dos desafios arquivísticos contemporâneos requer soluções
inovadoras e adaptativas. Entre os principais desafios destaca-se a sustentabilidade, que exige
estratégias eficazes para gerir o crescimento exponencial da informação digital, assegurando
simultaneamente a sua preservação a longo prazo. Os profissionais de arquivo confrontam-se ainda
com a necessidade de resistir à homogeneização cultural, à hegemonia de determinadas culturas em
detrimento de outras, e ao apagamento das identidades culturais singulares em prol de uma
uniformidade global. Estas tendências centrípetas comprometem os fundamentos das sociedades
plurais e multiculturais.
Para além disso, a profissão é chamada a lidar com as complexidades da dependência
tecnológica, procurando equilibrar os benefícios da inovação com os riscos inerentes à obsolescência
e à perda de dados.
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O estudo não encontrou uma resposta plenamente satisfatória nos modelos identificados,
devido à limitação dos papéis atribuídos aos intervenientes, à ênfase exclusiva na funcionalidade
organizacional, e à insuficiência de investimento em recursos materiais, humanos e técnicos
destinados ao processo de avaliação. Em consequência, verifica-se uma falta de reconhecimento da
importância da avaliação arquivística e dos profissionais que a realizam. Esta desvalorização contribui
para a exclusão dos arquivistas das equipas de projeto e dos processos decisórios relativos à
informação.
Contudo, esta ausência de reconhecimento pode também ser interpretada como um reflexo
do desencorajamento vivido pelos profissionais da área, percetível numa atitude não proactiva,
evidenciada na falta de aprofundamento formativo e de questionamento crítico (sob a forma de
investigação científica) no domínio da avaliação. A ausência de reflexão crítica compromete o
desenvolvimento de investigação contínua, a especificação e o refinamento dos critérios avaliativos
necessários para fundamentar decisões de seleção. Esta deficiência favorece a acumulação de massas
documentais, resultado do receio de tomar decisões avaliativas receio esse que é influenciado por
diversos fatores.
Em primeiro lugar, o conflito resultante da interpretação das ideias de diferentes teóricos
ou dirigentes de organismos coordenadores, cujas obras podem ter sido previamente estudadas ou
com as quais se mantém uma ligação tácita. Em segundo lugar, observa-se uma ambivalência nas
chefias de topo, que oscilam entre o desejo de eliminar toda a documentação, sobretudo em suporte
papel, e a tendência para conservar tudo, especialmente em formato digital. Esta ambivalência
frequentemente marginaliza o papel do arquivista/gestor da informação no processo de decisão e na
definição da política informacional da organização.
A esta realidade soma-se o acervo acumulado de informação arquivística, quer organizada
quer desorganizada, que espelha o funcionamento das unidades organizacionais e o valor que estas
atribuem aos registos dos seus procedimentos e transações. Acresce ainda o potencial interesse que
essa informação pode revestir para outros fins ou atores, o que adiciona uma camada adicional de
complexidade. A resolução desta problemática exige a identificação desses possíveis fins e atores,
sendo, contudo, necessário evitar a armadilha de um exercício infindável de futurologia.
Os modelos e abordagens avaliativas existentes constituem um ponto de partida para a
formulação de propostas mais abrangentes, que visem enfrentar problemáticas que esses mesmos
modelos ainda não conseguiram resolver. Existem fenómenos de adaptação e ajustamento desses
modelos e abordagens, que, embora concebidos com carácter integrador, foram desenvolvidos tendo
em vista um contexto ou conjunto de objetivos específicos. Por conseguinte, podem revelar-se
ineficazes noutros contextos e/ou incapazes de oferecer soluções para problemáticas situadas noutras
realidades.
Argumenta-se, assim, que não é exequível um modelo único para a avaliação da informação
arquivística.
7 RESPOSTAS AOS DESAFIOS NA ERA NEOMODERNA E PÓS-DIGITAL
Partindo da reflexão sobre as abordagens da Avaliação Arquivística emanadas da Era Moderna,
assim como as influenciadas pelos princípios pós-modernos, perceciona-se a necessidade de resposta
aos desafios da Era Neomoderna e Pós-Digital. Neste âmbito, evidencia-se a necessidade de práticas
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de avaliação que integrem a [inter]subjetividade, a desconstrução e a inclusividade. Daqui resulta uma
proposta de enquadramento compreensivo de princípios e propostas que visam uma avaliação
arquivística sustentável e transparente.
7.1 Propostas para a Avaliação Arquivística
Com o objetivo de dar resposta aos desafios identificados e como resultado da reflexão
desenvolvida no âmbito dos processos de codificação inerentes à aplicação do Grounded Theory
Method, emergiram vinte e quatro propostas. O Quadro 1 apresenta essas propostas.
Quadro 1: As 24 Propostas para a Avaliação Arquivística
Propostas
1.
A avaliação arquivística deve assumir um carácter mais abrangente, considerando a diversidade de formatos, suportes,
critérios, finalidades, bem como o que se entende por património e memória documental da sociedade.
2.
A avaliação da informação eletrónica e da informação em formatos analógicos deve reger-se pelos mesmos princípios e
critérios.
3.
O modelo de macroavaliação, associado à análise funcional, deve ser concebido segundo uma perspetiva integrada,
inclusiva, pluralista, multicultural, sistemática e transparente, de forma a abranger a totalidade da sociedade.
4.
As equipas responsáveis pela identificação dos valores sociais devem ser alargadas, com base numa metodologia
participativa e um alcance que assegure a representatividade das diversas comunidades que integram a sociedade.
5.
Cada análise de valores deve procurar captar o dinamismo resultante das transformações sociais, adotando um modelo
não hierárquico em que todos os valores possuam igual relevância. Tal abordagem poderá implicar alterações nos
instrumentos de classificação, avaliação, seleção e descrição, cujas estruturas deverão refletir essa não hierarquização.
6.
A identificação e a seleção do património documental devem assentar numa abordagem colaborativa e multidisciplinar,
alargando a participação para além dos arquivistas, e corrigindo os desequilíbrios de representação decorrentes das
desigualdades entre elites e minorias.
7.
O trabalho colaborativo e participativo, tanto na análise de valores como na identificação e na seleção do património
documental, deve ser concebido de modo intersectorial (entidades públicas, organizações não públicas, organizações
não-governamentais, entre outras). Esta colaboração deve incluir a partilha de conhecimentos, experiências e práticas
profissionais.
8.
Devem ser criadas condições que assegurem a inclusão das narrativas dos sujeitos da informação arquivística, a
preservação de registos em risco provenientes de fontes não-governamentais, a salvaguarda de registos relacionados
com a responsabilização e com aspetos nos quais as comunidades estejam em desacordo com o Estado ou outras
entidades.
9.
A memória documental deve ser considerada de forma mais abrangente no que respeita a suportes, formatos, tipologias
e proveniências.
10.
Os arquivos devem assumir novos papéis e práticas mais proativas, orientadas para a salvaguarda da memória sob uma
perspetiva patrimonial e histórica, com preocupação pelo outro e pelo futuro, considerando um enfoque mais alargado
sobre o potencial científico da informação.
11.
O papel do organismo coordenador no processo avaliativo orientado para a sociedade deve assegurar a definição do
planeamento e a implementação das estratégias propostas para a salvaguarda da documentação social.
12.
Os arquivistas devem assumir um papel proativo, promovendo a participação dos cidadãos na preservação da memória
documental da sociedade.
13.
Os arquivistas devem, ainda, desempenhar o papel de sensibilizadores de outros profissionais, relativamente à
importância da conservação a longo prazo e do acesso à informação por eles produzida, influenciando positivamente a
cultura organizacional.
14.
É necessária uma diferenciação entre o profissional e o cientista, de modo a garantir a independência na investigação
científica e na prossecução dos valores sociais e dos aspetos mais relevantes na identificação e seleção do património
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Propostas
documental. Esta diferenciação deve estar patente tanto na formação profissional como na formação académica, bem
como nos referenciais de competências profissionais.
15.
Os arquivistas devem adquirir e dominar competências digitais aprofundadas, para além do mero conhecimento
informático ao nível do utilizador.
16.
A formação académica deve promover competências metodológicas e o desenvolvimento de projetos de investigação
intensiva, recorrendo a equipas multidisciplinares para abordar as várias problemáticas identificadas.
17.
As estratégias e políticas de avaliação devem ser definidas com base em investigação de caráter social, assegurando a
existência de princípios partilhados.
18.
As estratégias e políticas de avaliação devem ser sustentadas por um enquadramento legal e regulamentar adequado.
19.
As instituições arquivísticas, ou unidades organizacionais com responsabilidades nesta matéria, devem elaborar, aplicar
e rever os seus instrumentos normativos que integrem a avaliação e definam políticas e orientações para a condução
das atividades avaliativas.
20.
As associações profissionais e académicas devem criar observatórios independentes com a missão de analisar
criticamente o planeamento, a sua execução e os resultados das atividades de avaliação.
21.
As organizações não públicas, as comunidades e os cidadãos devem ser incentivados a participar no processo de
avaliação, através da adoção de diversos estímulos, incluindo incentivos fiscais.
22.
Devem ser promovidos esforços de sensibilização no seio das organizações para deslocar o momento da avaliação do
final para o início do ciclo de vida da informação, bem como ações de formação para todos os colaboradores que lidam
com informação.
23.
A investigação multidisciplinar e participativa deve incluir, entre os seus objetivos, a definição de critérios e métricas de
qualidade para aferir os resultados da avaliação, bem como a criação de instrumentos operacionais que permitam
identificar as dimensões da qualidade e os respetivos indicadores, tanto para a informação arquivística eletrónica como
analógica.
24.
A verificação dos resultados deve permitir a identificação de áreas de melhoria, modificação e, sempre que possível,
correção, num ciclo contínuo de projeto.
Fonte: Corujo (2023).
7.2 Os Princípios da Avaliação
Complementando as propostas, foram extraídos dez princípios. O Quadro 2 apresenta estes
princípios.
Quadro 2: Os 10 Princípios da Metodologia de Avaliação Arquivística
Princípios
1.
Os modelos teóricos devem ser encarados exclusivamente em termos utilitários.
2.
A definição da política de avaliação deve estar orientada para a sociedade.
3.
A avaliação deve ser baseada numa participação ativa.
4.
A avaliação deve ser fundamentada em ações colaborativas.
5.
A avaliação deve garantir que a informação a ser preservada reflita múltiplas perspetivas da sociedade.
6.
A avaliação deve garantir a recolha de informação não textual.
7.
A avaliação deve promover o desenvolvimento constante de estudos sobre a sociedade.
8.
A avaliação deve orientar a organização da informação a ser permanentemente preservada, utilizando modelos não
hierárquicos.
9.
Os modelos teóricos de avaliação e os estudos sobre a sociedade devem ser vistos como transitórios e temporários.
10.
A formação de profissionais e académicos deve ter uma natureza transversal.
Fonte: Corujo (2023).
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7.3 Implicações Práticas
As Propostas e os Princípios oferecem aos arquivistas ferramentas para enfrentar os desafios
contemporâneos, mantendo práticas de avaliação éticas e reflexivas. A sua adoção representa uma
mudança para uma profissão arquivística mais resiliente e adaptativa. Elas constituem uma estratégia
para promover a produção e a preservação sustentável da informação digital, de forma a contrariar as
forças centrípetas da homogeneização cultural, e ponderar a dependência tecnológica em termos de
equilíbrio entre inovação e os riscos de obsolescência e perda de dados.
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O panorama em constante evolução da avaliação arquivística exige uma rotura com as
abordagens tradicionais e positivistas, em favor de quadros teóricos que abracem a complexidade, a
[inter]subjetividade, a desconstrução, a inclusividade e a pluralidade. Desafios como a
sustentabilidade, a homogeneização cultural ou hegemonia, e a dependência tecnológica exigem
soluções inovadoras e adaptativas.
A utilização da Teoria Fundamentada possibilitou a análise das metodologias pós-modernas,
de uma forma que permitiu fornecer ferramentas valiosas para enfrentar esses desafios, enquanto as
"24 Propostas" e os "10 Princípios" oferecem soluções práticas para a era neomoderna e pós-digital.
As Propostas delineiam estratégias acionáveis para modernizar a avaliação arquivística, enfatizando a
flexibilidade, a colaboração e as considerações éticas. Temas-chave incluem a Atribuição de Valor
Dinâmico, reconhecendo que o valor dos documentos evolui ao longo do tempo e do contexto; o
Envolvimento das Partes Interessadas, envolvendo diversas vozes nas decisões de avaliação para
garantir a representatividade; e as Práticas Sustentáveis, considerando o desenvolvimento de quadros
que atendem às limitações de recursos e aos avanços tecnológicos. Complementando as propostas, os
Princípios fornecem uma filosofia fundamental para a avaliação na era pós-digital. Estes princípios
sublinham a Transparência, garantindo que as decisões de avaliação sejam claras e justificáveis; o
Holismo, adotando uma perspetiva abrangente que integra múltiplos contextos e narrativas; e a
Inclusividade, valorizando as expressões e experiências culturais diversas.
Ao promoverem transparência, colaboração e adaptabilidade, os arquivistas podem garantir
que as práticas de avaliação não só preservem os registos, mas também contribuam para a construção
de uma memória cultural mais equitativa e sustentável.
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