Revista EDICIC, San José (Costa Rica), v.25, e-6033, p.1-21, 2025. ISSN: 2236-5753
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Habermas reitera recentemente (2023) esta tendência da colonização da esfera pública por
interesses económicos e lógicas sistémicas, em que a comunicação é substituída pela publicidade, o
cidadão ativo transforma-se em consumidor passivo, o Estado torna-se mais intervencionista e o
mercado mais invasivo. À medida que o ideal deliberativo foi sendo minado e a opinião pública se foi
tornando manipulável, tal redundou na crise da legitimidade dos parlamentos e dos partidos, no
impacto da globalização e da financeirização na vontade política e num quadro de desinformação
sistémica, caldo para a ascensão de regimes autoritários e da apatia cívica. A esfera pública perceciona-
se, atualmente, marcada pela digitalização, fragmentação, populismo e erosão da confiança pública,
num ambiente mediado por plataformas digitais e redes algorítmicas. As plataformas digitais de redes
sociais substituem, em grande parte, os meios de comunicação tradicionais como mediadores da
opinião pública, mas sem recorrer a filtros epistémicos, com baixa qualidade deliberativa e alta
polarização (Habermas, 2023).
Perante este cenário, de crescente interdependência económica e ecológica global, que
implica uma esfera pública transnacional e uma vontade política que transcenda o Estado-nação, que
sirvam para reorientar as infraestruturas políticas e tecnológicas, com a finalidade de garantir inclusão,
qualidade discursiva e eficácia política (Habermas, 2023), apontamos a perspetiva neomoderna
proposta por Rouanet (1998), e que contesta “a modernidade atual em nome da modernidade virtual”,
que se opõe às “fantasias pós-modernas” com um programa exigente e “inflexivelmente moderno”
para fazer cumprir as espectativas criadas pelo projeto de modernidade (Rouanet, 1998, p.270). Tal
significa aceitar o desencantamento do mundo como processo que libertou o Homem da autoridade
e tradição, mas também recusar as propostas de regressão pré-modernas oriundas dos novos e velhos
fundamentalismos e seitas. Daí resulta o combate ao obscurantismo e a defesa da Ciência contra quem
a ataca (por vezes, fazendo mesmo uso da dialética emanada do discurso científico). Rouanet (1986,
1998) defende ainda que cabe à Sociedade definir as políticas científicas, sem que, para isso, interfira
na pragmática do discurso científico. No fundo, a neomodernidade como resultado da reflexão que a
modernidade realiza sobre si mesma, as suas origens e derivações. Assim, apoiando-se na ideia de
racionalidade habermasiana (Habermas, 2006; Giddens, 1992), que considera a razão crítica a
ferramenta para contrapor o relativismo, Rouanet (1998) considera a necessidade de constituição de
um novo racionalismo, o que exige um processo de “reconstrução da modernidade”. Nesta perspetiva,
a razão é um processo argumentativo com o fito de atingir o consenso “sem deformações externas,
resultantes da violência, ou internas, resultantes da falsa consciência, através de provas e
contraprovas, de argumentos e contra-argumentos”, negando a facticidade, ao não considerar a
existência de proposições que possam corresponder a uma (única!) verdade objetiva (Rouanet 1998).
Isto é corroborado por Marques (1993), quando, ao abrigo da ideia de que a relação intersubjetiva
constrói o conhecimento, permite considerar que o fator de validação teórica não é a relação entre o
sujeito e as suas experiências com o objeto, mas sim a relação entre sujeitos. Pelo que são o discurso
e a argumentação dos sujeitos às partes interessadas que constroem a validade das teorias. Será,
assim, pela linguagem, mais precisamente, pelo discurso teórico argumentativo, que se validam as
pretensões de verdade (Marques, 1993). Mas tal significa, reitera-se, que as verdades são mediadas e
já não imutáveis, podendo ser repensadas intersubjetivamente e modificadas através da linguagem, a
mesma que é usada para as validar.
Para Rouanet (1998), a perspetiva neomoderna não renuncia ao projeto hegeliano de
restaurar a unidade da razão pulverizada e de permitir que a humanidade possa atingir um
entendimento mútuo sobre os problemas derivados do mundo objetivo das coisas, do mundo social