Revista EDICIC, San José (Costa Rica), v.25, e-6032, p.1-17, 2025. ISSN: 2236-5753
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esperança", fortalece a luta por justiça, mesmo diante das adversidades impostas pelos opressores.
Além disso, a educação como prática de liberdade possibilita o enfrentamento da perda e a
restauração do senso de conexão entre os indivíduos, promovendo uma educação que pode realmente
transformar as diferentes realidades (Hooks, 2021).
Considerando o papel essencial das universidades na formação de profissionais, torna-se
fundamental a inclusão de disciplinas que abordem questões étnico-raciais. Essa inclusão não apenas
constrói um processo de identidade, mas também promove o desenvolvimento de uma consciência
crítica sobre diversidade e inclusão (Faben & Oliveira, 2022).
A partir das reflexões e análises teóricas previamente apresentadas, torna-se evidente que o
debate sobre racismo no campo da Biblioteconomia é não apenas necessário, mas urgentíssimo. As
universidades brasileiras, historicamente moldadas para servir a uma elite predominantemente
branca, passaram por um importante marco de transformação com a implementação das políticas de
cotas raciais e socioeconômicas. Esse processo resultou em uma pluralização significativa da presença
estudantil nos espaços universitários, diversificando o corpo discente e, progressivamente, o corpo
docente, uma vez que os editais de concurso têm incluído essas ações afirmativas.
Atualmente, a diversidade racial, étnica e social é visível nos corredores, nas salas de aula e
nos grupos de pesquisa, uma vitória significativa proporcionada pelo Governo Federal através do
Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI).
Contudo, essa mudança visível na composição do corpo discente não foi acompanhada por uma
transformação profunda nas estruturas curriculares e epistemológicas da universidade. Apesar da
diversidade aparente, o sistema educacional universitário ainda opera sob uma lógica eurocentrada,
que privilegia saberes brancos, masculinos e hegemônicos, em detrimento das epistemologias negras,
indígenas, periféricas, feministas e abolicionistas de gênero.
A produção científica e acadêmica ainda confere maior legitimidade e prestígio a autores
considerados "eruditos" do início da Biblioteconomia, perpetuando a predominância de vozes brancas,
muitas vezes vistas como o padrão universal. Esse cenário é um reflexo do epistemicídio histórico e
sistemático descrito por Silva, Garcez e Silva (2022), que evidenciam como a ausência de
epistemologias negras nos currículos universitários contribui para a perpetuação de um modelo de
ensino excludente.
Embora as Diretrizes Curriculares Nacionais, em conformidade com as Leis nº 10.639/2003 e
nº 11.645/2008, determinem a obrigatoriedade da inclusão das temáticas da história e cultura afro-
brasileira, africana e indígena em todos os níveis de ensino, inclusive no ensino superior, essa exigência
ainda enfrenta barreiras estruturais. Essas leis foram criadas para provocar uma ruptura institucional
e “forçar” as universidades a se posicionarem frente ao racismo. O fato de ser necessário legislar sobre
algo tão fundamental, como ensinar sobre a história e as contribuições de povos que constituem a
base da sociedade brasileira, revela a urgência de instrumentos normativos que garantam que o
racismo seja nomeado, debatido e enfrentado para sua erradicação nos espaços de ensino.
A investigação sobre o epistemicídio na formação de profissionais de Biblioteconomia, assim
como a construção de uma proposta teórica e prática para uma formação continuada que enfrente o
racismo estrutural e epistêmico, exige uma análise das estruturas que sustentam a exclusão de
epistemologias negras e de demais saberes subalternizados no campo acadêmico. Nesse sentido, Silva,
Garcez e Silva (2022) abordam com profundidade como a ocultação dos saberes negros ocorre no